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Jorge Guerreiro, candidato do Bloco à Junta de Freguesia: «Esta candidatura vem dar mais força a Quarteira»

Entrevista com Jorge Guerreiro, candidato do Bloco de Esquerda à Junta de Freguesia de Quarteira.

Jorge Guerreiro assinando o termo de aceitação como cabeça-de-lista do Bloco de Esquerda à Freguesia de Quarteira

Como é que aparece o tesoureiro do primeiro mandato do atual executivo da junta a encabeçar a lista de outro partido?

Foi um convite endereçado pelo Bloco de Esquerda. Não aceitei logo à primeira. Fui pensando, amadurecendo, porque não é fácil estar há 27 anos num partido e sair. Já saí há alguns meses do Partido Socialista. Fui fundador da JS em Quarteira, estive sempre envolvido na vida do partido, pelo que não foi fácil tomar esta decisão mas o rumo que o partido tem tomado nestes últimos 4 anos a nível local, fez com que eu não pactue com o que está aí em exercício, principalmente na câmara municipal. Então, decidi abandonar o partido porque quando aderi ao PS em Quarteira foi por Quarteira e saí do partido por Quarteira e agora candidato-me por Quarteira.

Qual é o principal objetivo desta candidatura?

Esta candidatura tem como objetivo dar representatividade a mais uma força política. Penso que, se for eleito, vai ser mais uma força de um partido que vai dar mais força a Quarteira. Esta candidatura não é contra ninguém, é uma candidatura por Quarteira, pela positiva. Vai ser uma candidatura para fazer pontes e não para erguer muros. Vou tentar reivindicar aquilo que há mais de 30 anos não é feito e isso não pode continuar. As coisas têm de ter resolução.

Designadamente…

Joaquim Vairinhos fez um plano para Quarteira para o mandato 1995-1999 com Vítor Aleixo e é de estranhar que Vítor Aleixo não pegue nessa ferramenta de trabalho que teve no mandato de 95-99, onde ainda foi presidente da câmara 2 anos. Ferramenta essa que continua válida porque muitas coisas ainda não foram feitas. Podemos pegar em várias situações, desde logo a Casa da Cultura, fala-se nos projetos mas passaram 8 anos e em termos de obra não acontece; O Mercado Municipal, ou seja, as praças do peixe e da fruta, é a mesma coisa. 25 anos depois continua por cumprir e 25 anos é muito tempo; No Museu do Mar, agora nem se fala nisso; Em termos de creches, apresenta-se agora um projeto para 96 crianças, tudo muito bem, é positivo mas só vai ser concluído em 2024. Neste espaço de 3 anos, vão nascer mais 1500 crianças porque por ano são cerca de 500 que nascem em Quarteira e os pais não têm onde pôr as crianças em termos de berçários. A 1.ª Infância está muito desprotegida e a Terceira Idade a mesma coisa. Temos mais de 5 mil pessoas com mais de 65 anos e não há um sítio onde colocar uma pessoa idosa. Não há um centro de dia, não há um lar, nada foi feito nesta área. Uma das promessas era um centro de dia e essa promessa não foi cumprida. Vítor Aleixo pode alegar que o PSD, durante 12 anos, meteu o plano na gaveta mas ele tinha a obrigação de pegar nele porque, se era válido em 95, continua a ser válido agora, 26 anos depois. Devia ter dado continuidade a esse plano e ir fazendo aquilo que não foi feito e acho que, em 8 anos, fez-se muito pouco. No primeiro mandato, ainda se fez alguma coisa mas arrisco a dizer que este segundo mandato foi pior que o último de Seruca Emídio pelo PSD, infelizmente para Quarteira.

Voltando atrás, como é que esta candidatura dá mais força a Quarteira?

Esta candidatura dá mais força a Quarteira porque, por um lado, permite haver mais democracia. Haver representatividade de mais forças, torna-se mais democrático, mais participativo. Haver partidos que consigam eleger um elemento que seja, isso é positivo. Quanto mais representativa for a assembleia de freguesia, melhor é para Quarteira. Começa a haver mais força porque, à partida, há muitos objetivos comuns. Não acredito que haja algum partido em Quarteira que seja contra haver mais uma creche, mais um centro de dia ou mais um lar para a 3.ª idade porque o que se fizer bem é bom para todos e o que se fizer mal é mau para todos e acho que a câmara municipal não tem olhado para Quarteira com o respeito que os quarteirenses merecem. Tem falhado aqui muita coisa. Neste mandato, Vítor Aleixo esqueceu-se completamente do povo, só liga a uma determinada elite e a pandemia não serve para explicar tudo. Então, isso faz com que ele esteja afastado da realidade do que se passa em Quarteira.

Sendo casado com uma enfermeira, uma ligação à Saúde, isso permite um conhecimento de como está o estado da Saúde em Quarteira, designadamente no Centro de Saúde?

Sim e aí também Vítor Aleixo falhou. Prometeu ao atual presidente de junta e ao atual diretor do Centro de Saúde um edifício novo e nada foi feito. Nem o estudo está feito. No início, esteve bem em termos de fardamentos e refeições. Aí teve mérito. Quanto ao resto, em termos de obra, falhou e nada foi feito. Devíamos ter uma consulta até às 24 horas todo o ano porque Quarteira é a maior freguesia do concelho, com 25 mil pessoas e não faz sentido que tenha que se ir para Loulé, a partir das 20 horas, que é quando as pessoas saem dos empregos e têm mais disponibilidade de acorrer aos serviços de saúde. Recordo-me de uma reunião em que participei há 8 anos, quando integrei a lista candidata à junta de freguesia, onde nos foi dito que eram atendidas cerca de 25 pessoas por dia no Centro de Saúde de Quarteira entre as 20h e a meia-noite, o que iria aliviar o Centro de Saúde de Loulé. Acho que Quarteira gera receita suficiente para pagar a 4 pessoas porque só precisa de lá ter um médico, um enfermeiro, um administrativo e um segurança. Como a câmara não quer despender verba, fica na mesma, com horário reduzido, o que é um retrocesso ao horário alargado que já existiu. É urgente que esteja aberto até à meia-noite com consulta aberta. É preciso um reforço, apesar de agora termos uma USF (Unidade de Saúde Familiar) e uma UCSP (Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados) tudo no mesmo edifício e devia haver aqui uma separação. O plano para a requalificação do Centro de Saúde de Quarteira falava numa área de internamento com mil m2 e isso nunca foi feito.

A autarquia de Loulé até podia assumir o custo do pessoal mas depois temos o problema das rendas muito elevadas em Quarteira nos poucos casos disponíveis de arrendamento ao ano…

Aí, deixo uma pergunta: Quantos fogos de habitação a custos controlados fez a câmara em Quarteira? Zero. Tal como creches, centros de dia e lares.

E como avalia o combate à pandemia por parte da câmara municipal?

No combate à pandemia, onde acho que a câmara pecou muito foi no apoio aos pequenos empresários. Não houve ajuda nenhuma. O programa Toma Lá Dá Cá é um fiasco. Em Quarteira, quase ninguém aderiu. Em 5500 empresas, nem 100 aderiram e mesmo as que aderiram não avançaram devido às dificuldades levantadas ao longo do processo de adesão. Estamos a falar de um programa com uma dotação de 1 milhão de Euros, o que não é nada comparativamente à quebra das receitas que se tem vindo a registar. Isso é uma migalha para um universo de 5500 empresas. Feita a divisão, dá algumas centenas de Euros a cada uma. Nem dá para pagar um ordenado. Se não houver empresas não há emprego. Se não houver emprego, as pessoas passam mal. Tendo em conta a situação atual, já devia ter sido ativado o Fundo de Emergência Municipal. Já deviam estar a pensar nisso porque só peca por tardio se alguma vez o vierem a ativar. Um concelho menor, como Albufeira, tem feito mais pelas pessoas e pelos empresários. Será que lá é legal e aqui é ilegal? Estamos em países diferentes? Por este andar, no fim do verão, pode vir a ocorrer um tsunami social no concelho e em Quarteira, principalmente, por ser a maior freguesia do concelho e mais dependente do turismo.

Como avalia a área do Desporto na freguesia?

Aí, temos uma coisa: Como é que se faz uma nova pista de BMX sem as medidas mínimas para competições internacionais? Vamos ficar como as piscinas, onde não pode haver certas competições porque não tem as medidas mínimas. Se continuamos a fazer em Quarteira o tal poucochinho de Seruca Emídio, que dizia em cada inauguração que era pouco, não chegava mas era o que se podia arranjar, agora continuamos na mesma onda. Portanto, é triste constatarmos que Vítor Aleixo continua na mesma onda de Seruca Emídio. Loulé continua com a mesma postura relativamente a Quarteira: Criar lá condições para competições internacionais e impedir que aqui se façam. Isto é um insulto aos quarteirenses. O pavilhão da Escola D. Dinis inicialmente previa 3 mil lugares e agora querem fazer com 1500 e nem sequer esse está feito. Assim, por exemplo, finais de basquetebol não se fazem aqui para se continuar a fazer lá. Não temos que ser mais nem menos que Loulé. Temos que ser iguais, designadamente nesse aspeto, e até aqui não tem havido igualdade de tratamento. Sendo Quarteira a maior freguesia do concelho, temos mais pessoas, temos mais desequilíbrios e as infraestruturas que se fazem continuam a ser subdimensionadas. Quarteira continua a crescer e já é a 3.ª maior freguesia do Algarve, num total de 64, tem mais população que 6 concelhos e isto cria problemas de toda a ordem. O presidente da junta de Quarteira, num dia, atende mais casos que o Ameixial se calhar num mês. São tantas pessoas e com uma diversidade tão grande que não é fácil no atual enquadramento e por isso precisamos de mais e melhor.

Quarteira é uma freguesia que tem vindo a crescer com a força das pessoas que escolhem esta terra para viver, não só nacionais como uma crescente comunidade de italianos e franceses, com outro poder de compra. Entende que este investimento privado não tem sido acompanhado do devido investimento público na criação das infraestruturas adequadas e dos equipamentos necessários?

Não acompanha já há muito tempo. Temos de ter melhor e mais saúde, melhor e mais segurança, fez-se um quartel, tudo muito bem mas cada vez temos menos efetivos. Isso não faz sentido nenhum.

E ao nível da limpeza urbana?

Na limpeza urbana, Vítor Aleixo decidiu adjudicar o serviço a privados há 6 anos atrás e a qualidade do serviço piorou drasticamente. É inconcebível numa terra de turismo haver ruas 15 dias por limpar. Não pode ser. Tem que haver aqui outro tipo de serviço. Vamos ver se com a transferência de novas competências agora para a junta, cuja transição ainda não está feita, é uma das coisas que tem de melhorar rapidamente. Limpeza e espaços verdes tem de se melhorar. É preciso criar mais espaços verdes para os jovens, criar mais espaços com jardins, não é preciso serem muito grandes, para os pais poderem estar com os filhos. Não pode ser só na frente mar. Tem de ser dentro da Quarteira antiga. O trânsito é outra questão. A reformulação está agora a dar os primeiros passos. Um presidente de câmara que não consegue resolver, em 8 anos, a situação do trânsito, 8 anos é muito tempo, para mais com um projeto entregue pela junta de freguesia no anterior mandato, pago pela mesma, e agora que estamos em eleições parece que estão a mexer nalguma coisa. Vamos ver se há alterações significativas adequadas à crescente evolução da cidade.

A Pesca é muito importante para esta terra. Está tudo bem como está ou é preciso alguma melhoria?

É importante criar melhores condições para os pescadores ao nível da segurança, iluminação e outras. Brevemente irei ter uma reunir com a associação Quarpesca para me inteirar melhor das dificuldades. É preciso criar condições para os pescadores poderem trabalhar em segurança porque, sem segurança, é complicado.

Neste contexto de pandemia, os principais eventos anuais da cidade têm sido cancelados. Quando houver condições para o seu regresso, o apoio camarário é o adequado?

Nesse particular, a Passagem de Ano e as Marchas dos Santos Populares têm de estar ao nível do Carnaval de Loulé, da Noite Branca e do Festival Med. Tem que haver um investimento mais substancial. A Passagem de Ano devia ser 3 dias para permitir a tal escapadinha, promover como deve ser para ser atrativo para que o comércio e os hotéis pudessem trabalhar. Agora estamos numa pandemia mas quando isto passar tem que haver uma aposta forte aqui. Não é investir 30 ou 40 mil Euros numa Passagem de Ano em Quarteira porque isso não é nada. Se é de âmbito concelhio, não se percebe tão reduzido investimento quando se gasta em Loulé em eventos tipo Med e Noite Branca meio milhão de Euros e depois em Quarteira não chega a 1 décimo dessa verba. As Marchas a mesma coisa. É preciso mais bancadas e mais iluminação, televisão sempre. Temos que vender aquilo que temos de melhor. As Marchas de Quarteira estão ao mesmo nível das de Lisboa. Não ficamos atrás. Só que não são devidamente divulgadas e projetadas para o écran. Não há uma promoção em termos de televisão, o que já deveria ter acontecido. Os louletanos têm de perceber que se Quarteira estiver bem, Loulé está bem. Se é criada mais riqueza em Quarteira, isso contribui para o crescimento do orçamento municipal.

Gostaria ainda de falar do Centro de Emprego. Não se entende como é que na maior freguesia do concelho, com a maior taxa de desemprego, o Centro de Emprego de uma cidade funciona dois dias por semana, à terça e à quinta. Tem de trabalhar todos os dias úteis da semana. Numa cidade como Quarteira, isto não faz sentido nenhum. Há coisas que estão mal e têm de ser alteradas.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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