Saúde

Estudo pioneiro revela que a utilização de videojogos favorece o processo de cura do cancro pediátrico e uma diminuição da dor em 14% nas crianças

  • Um estudo científico realizado pela Fundação Juegaterapia juntamente com uma equipa médica do Hospital La Paz de Madrid demonstra que os as crianças com doenças oncológicas com mucosite pós-quimioterapia, uma das consequências mais dolorosas de todo o tratamento, sentem menos dor quando jogam videojogos.
  • A investigação concluiu que se verifica uma diminuição de 20% na administração de morfina nestas crianças e um aumento de 14% no tom parassimpático, largamente responsável pela recuperação do corpo, favorecendo a cura. 
  • Os resultados deste estudo sugerem que os videojogos poderiam ser considerados como analgésicos não farmacológicos na mucosite oncológica pediátrica e, assim, fazer parte do protocolo de cuidados de saúde para estes pacientes.  

A Fundação Juegaterapia, que apoia as crianças que sofrem de cancro, trabalha há mais de onze anos com o lema “a quimioterapia a brincar passa a voar”, período durante o qual instalou consolas de videojogos em salas de oncologia pediátrica em hospitais de vários países incluindo Portugal. Um estudo científico, pioneiro promovido pela Fundação Juegaterapia e realizado no Hospital La Paz em Madrid, confirmou recentemente que jogar videojogos durante o tratamento de quimioterapia faz com que as crianças sintam menos dor, favorecendo o seu processo de cura.

Esta é a primeira vez que o efeito benéfico da utilização de videojogos na gestão da dor aguda foi estudado. A melhoria dos pacientes pediátricos foi já demonstrada do ponto de vista psicológico, pois a ansiedade causada pela hospitalização é reduzida, favorecendo a tranquilização mental em tais situações.

A investigação compara a influência da utilização de consolas de videojogos na dor das crianças, as doses de morfina necessárias e o nível de ativação do sistema simpático/parassimpático com dispositivos de monitorização de última geração (Analgesia-Nociception Index e Algiscan).

Com esta campanha, a Fundação Juegaterapia apela à doação de consolas agora, precisamente após o Natal, quando as antigas estão a ser substituídas pelas novas que chegaram a casa das crianças como presentes na época festiva. Além disso, com a divulgação dos resultados deste estudo científico, a Fundação pretende também chegar aos departamentos médicos hospitalares a fim de incluir os videojogos nos protocolos das terapias de saúde.

O estudo em dados

Consumo de morfina reduzido em 20% enquanto as crianças jogam consola

A dor sentida pelas crianças durante a observação foi menor devido a uma diminuição de 20% no consumo diário de morfina; este dado faz referência à dor basal (dor presente durante ≥12 horas/dia.) e ao humor, com uma diminuição de até 44% nos momentos mais intensos, a dor incidental (relacionada com um fator identificável, geralmente previsível). Todas estas medições foram realizadas através de uma Escala Analógica Visual.

Aumento de 14% no tom parassimpático, que promove a cura

A nocicepção aguda (perceção consciente da dor) está associada a alterações na regulação do equilíbrio simpático-parassimpático. Quando confrontado com uma ameaça física, o nosso corpo ativa o sistema simpático para nos ajudar a fugir desta agressão mas, ao mesmo tempo, atua negativamente, aumentando a pressão arterial e o ritmo cardíaco, entre outras consequências. A forma de contrariar esta situação é ativando o sistema parassimpático, que promove a recuperação fisiológica.

Dor reduzida em 14%

Neste estudo, às crianças com cancro que sofriam de mucosite, uma das consequências pós-quimioterapia mais dolorosas que as impede até de engolir saliva, foram oferecidas consolas para que jogassem videojogos enquanto eram monitorizadas com dois dispositivos: o Analgesia-Nociception Index Monitor (ANIR), que mede o ritmo cardíaco, e o sistema de pupilometria de vídeo AlgiscanR. Concluiu-se que não houve alteração no tamanho da pupila, apesar da administração de uma dose menor de morfina, indicando assim um aumento de 14% no tom parassimpático e 14% no alívio da dor.

Francisco Reinoso-Barbero, chefe da Unidade da Dor do Hospital Infantil de La Paz em Madrid e coautor do estudo, salienta que “as implicações clínicas destas descobertas seriam importantes, porque os videojogos poderiam ser incluídos como parte do plano terapêutico não farmacológico para a mucosite oncológica pediátrica”.

Nas palavras de Mario Alonso Puig, médico e Patrono Honorário da Fundação Juegaterapia, “o sistema nervoso simpático em crianças com cancro é ativado quando confrontado com uma situação tão dura como a de ser internada no hospital. O sistema nervoso simpático mobiliza o corpo para que possamos fugir de uma ameaça, de um perigo. Contudo, a criança doente não pode fugir porque está de alguma forma ‘ancorada’ à sua quimioterapia. O sistema nervoso simpático, quando mantido ativo de forma sustentada, tem consequências muito negativas sobre o corpo. A mesma área do sistema nervoso que nos protege contra certos tipos de ameaças, o sistema nervoso simpático, está neste caso a trabalhar contra nós. A ativação sustentada do sistema nervoso simpático sobrecarrega o coração, promove a tensão arterial elevada e dificulta também o funcionamento do sistema imunitário, o que é essencial para enfrentar a doença.

O Dr. Alonso Puig acrescenta também que: “quando uma criança está imersa num jogo de que gosta, isto paralisa a geração de pensamentos perturbadores que produzem ansiedade, geram dor e ativam o sistema nervoso simpático, dada a interação estreita entre a mente e o corpo. Através da imersão total na brincadeira, a criança doente ativa o seu sistema nervoso parassimpático. Esta outra área do sistema nervoso vegetativo tem duas funções: por um lado, favorece a interação social e, por outro, ajuda a manter a homeostase ou o equilíbrio interno do organismo, reduzindo também danos nos diferentes órgãos do corpo”. Além disso, “observamos nestas crianças uma maior tranquilidade, uma redução da tensão emocional que mostra que se sentem seguras”. No final, tudo pode ser resumido com o nosso lema: “a quimioterapia a brincar passa a voar”, salienta o Dr. Alonso Puig.

A investigação foi publicada no Journal of Medical Internet Research sob o título “The Association Between Pain Relief Using Video Games and an Increase in Vagal Tone in Children With Cancer: Analytic Observational Estudo With a Quasi-Experimental Pre/Posttest Methodology”.

Pode consultar o estudo aqui.

Sobre a Fundação Juegaterapia

A Fundação Juegaterapia ajuda as crianças com cancro através de jogos e brincadeiras: quando os tratamentos de quimioterapia não permitem que saiam dos quartos, proporcionando-lhes várias opções de diversão. A brincadeira também está em todos os hospitais pediátricos onde a Fundação Juegaterapia atua, transformando-os em lugares alegres, divertidos e mágicos: os telhados, em desuso, transformam-se em jardins ao ar livre (a Fundação já construiu quatro jardins em vários hospitais de Espanha); as salas vazias tornam-se salas de cinema ou áreas de jogos com ecrãs, televisões e óculos de realidade virtual. E as salas de isolamento passam a ser estações lunares, que convertem a angústia e o tédio em brincadeira e diversão. Para tal, a Fundação Juegaterapia doou já materiais como videoconsolas e Baby Pelones, que fazem com que estas crianças tenham um dia mais feliz. Marcas como a PlayStation, Enviália, Entradium, L3tCraft, Tinkle e Iberian Care colaboram permanentemente e de forma desinteressada com a Fundação Juegaterapia.

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