Quarteira

Quarteira já tem “as minhas e outras memórias”, por César Correia

O ex-árbitro internacional César Correia acaba de lançar a sua mais recente obra, “As minhas e outras memórias de Quarteira”. A apresentação teve lugar este sábado, 14 de maio, integrada nas comemorações do 23.º aniversário da Cidade de Quarteira.

A obra foi apresentada pelo presidente da Associação de Futebol do Algarve e empresário do Turismo, Reinaldo Teixeira e contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Loulé, Vítor Aleixo e do presidente da Junta de Freguesia de Quarteira, Telmo Pinto.

Reinaldo Teixeira apresentou o vasto currículo do autor, referindo, designadamente, que se notabilizou no campo da arbitragem, onde chegou a ser considerado o melhor árbitro português, com mais de 700 jogos arbitrados, tanto nacionais como internacionais, incluindo da FIFA e da UEFA, mas também como dirigente, correspondente de vários órgãos da comunicação social, incluindo a Antena 1 Algarve, Rádio Clube do Sul e Voz de Portugal em Montreal, Canadá, e empresário corticeiro, entre muitas mais ocupações, tendo recebido várias distinções e reconhecimentos. No campo das letras, é autor de vários livros. Aos dez anos de idade veio para Quarteira, onde tem feito toda a sua vida e é dessa vivência que surge esta sua mais recente obra.

Reinaldo Teixeira sublinhou que “é desse trajeto que o livro nos fala. Um livro que nos fala de uma caminhada que começa aos 10 anos de idade, conta-nos a história dessa 1.ª visita a Quarteira, fala de muitos amigos, fala da relação com os outros e o afeto das pessoas locais. O reconhecimento do espírito de luta dos quarteirenses também é muito marcante neste livro, a forma como faziam a sua vida, a força humana que era necessária para poderem desenvolver a sua atividade predominante na época, a pesca, o empenho de muitos quarteirenses no crescimento da sua terra, muitos dos quais ainda estão cá, a forma como contribuíram para a evolução de uma aldeia de pescadores para a cidade que é hoje. O César não foca os políticos mas foca as entidades com as quais os quarteirenses se relacionaram para fazer crescer a sua terra. Aqui surgem também as fotografias dos políticos que marcaram a vida de de Quarteira na altura. Tem, para mim, uma particularidade que acho ser importante: Este momento que vivemos, nos últimos anos, momentos que a todos angustiou mas que também tem alguns aspetos positivos, ou seja, este livro é escrito no período da pandemia. Nele encontramos muitas vivências de outros tempos. Tempos em que quem vivia no barrocal dizia que vinha a banhos ao Algarve, era assim que se dizia naquela altura. E o regresso era do Algarve à serra. Este livro marca muito essas deslocações e a forma como as pessoas do país inteiro e de todo o mundo eram recebidas pelos quarteirenses. São memórias que nos fazem recordar aqueles tempos que na altura marcaram muito Quarteira que na altura era vista como uma localidade piscatória, com afetos de pessoas que estão bem presentes nesta obra”.

Reinaldo Teixeira sublinha que o livro “marca também aquele período em que se ia e vinha com os barcos para a pesca, num processo muito difícil e complicado para os tirar e voltar a colocar na areia, também com a lota na areia, nada comparado à realidade de hoje. Fala-nos também daquele período das festividades populares marcantes na época, bem como a tradição de então, dos Banhos de S. João, das mulas e dos machos, aqui bem documentados por fotografias. Quando fala da adolescência, não conta tudo, fala pela rama, como se costuma dizer. Fala dos seus grupos de amigos, os seus convívios nos bailaricos e a forma como conquistou aquela que viria a ser a sua esposa mas sempre falando pela rama, sem aprofundar muito a coisa, para não ficar muito picante. Fala dos muitos artistas que vinham a Quarteira, desde Amália Rodrigues aos Pax Julia, presença habitual todos os anos. Quarteira tem de facto uma história rica onde as pessoas se reveem, continuam a vir para cá e a divulgar Quarteira aos amigos e familiares nos sítios de onde são originárias. Fala também da presença assídua de Miguel Torga em Quarteira, vinca muito bem esse período da Miss Praia de Quarteira. Um livro que marca muito a estas duas referências de Quarteira, a pesca e a praia. Isso fica muito bem vincado no livro. Depois, fala daqueles tempos, que eu recordo bem, ao pé da bola de Nivea, do Café Calcinha e do Café Isidoro com todas aquelas vivências nas suas esplanadas. Fala-nos também do saudoso restaurante Toca do Coelho, hoje Hotel D. José, do saudoso José Coelho e das afamadas Lulas Recheadas da sua esposa, conhecidas como as melhores do mundo. Fala muito nas figuras marcantes da época, fala da afetividade, em suma, fala de pessoas, algumas das quais aqui presentes, como o Cândido Correia, o Amilcar Rita Duarte, o José Manuel Guerreiro e o João Fome, bem marcados no livro. Fala também de sítios como a Casa dos Pescadores e o Cinema Mariani, memórias que o tempo não apagará. No fundo, é um legado que nos permite falar das nossas raízes e da nossa identidade às novas gerações”.

César Correia começou por dizer: “Depois de tudo aquilo que ouvimos, tudo o que eu disser pouco vai acrescentar. De qualquer maneira, vou pontuar algumas situações porque, efetivamente, há coisas que marcam a nossa memória e foi isso que me orientou para evocar aqui. Nós somos o povo mas também podemos fazer alguma coisa pela Cultura e pela terra de que gostamos e onde estamos a viver e essa é a razão de viver cá e gostar desta terra onde estou. O que posso acrescentar é que vale a pena ler o livro porque há muitas coisas nas entrelinhas porque há aqui muitos factos para maiores de 18 anos. Seja como for, o meu estado de espírito hoje é o de um homem que se sente realizado. E realizado porque sempre fiz o que mais gostei na vida: envolver-me no futebol como amador e como profissional na indústria da cortiça. Outra razão é que tenho saúde e amigos e família de quem gosto muito e sei que sou retribuído. Sinto-me, pois, realizado e feliz. Falando deste livro, direi que assentam em 3 vetores algumas das suas particularidades: Os agradecimentos devidos a quantos possibilitaram a concretização da obra; a constatação de que reviver um bom pedaço do caminho percorrido é voltar a ser feliz; e a motivação que anima quantos dobraram o Equador da vida no sentido de partilharem com os vindouros a riqueza das suas experiências”, agradecendo “à Câmara Municipal de Loulé na pessoa do seu presidente, Dr. Vítor Aleixo, que apadrinhou este trabalho logo que conheceu o neófito e percebeu que podia ter vida. Também importantes foram os contributos do revisor, Carlos Campaniço e da designer Brígida Sousa. Ambos arriscaram e apostaram, ocuparam muitas obras neste trabalho, ainda sem qualquer garantia de que a obra viesse a ser publicada. Ajudas igualmente importantes e decisivas foram as de um grupo de amigos, alguns presentes, que comigo viveram as aventuras e desventuras que o livro nos revela e outros tantos que me ajudaram a ir ao capítulo das recordações de meio século. Também a quantos me facultaram algumas das inúmeras fotografias que ilustram a publicação de momentos felizes e de convívio, de outros momentos assim nem tanto mas sempre vividos intensamente pela comunidade quarteirense”.

Segundo Vitor Aleixo, “foi com emoção que ouvi a apresentação desta obra pelo Reinaldo e dou-lhe os parabéns por isso. Esteve muito bem nesse papel. Depois, agradecer muito particularmente ao nosso amigo César Correia porque, logo que folheei o livro, imediatamente percebi que estava perante um documento que tem uma importância extraordinária para o futuro. As memórias, se não se fixam, perdem-se e fixar esta memória dos anos 50, 60, 70, é de facto uma coisa extraordinária e eu, ao reencontrar-me com personagens que já tinham saído da minha memória, é um livro abundantemente povoado de fotografias das várias épocas de Quarteira. É um livro que nos traz à memória figuras marcantes desta comunidade, desde os anos 50. César Correia pertence àquela elite que vinha todos os anos a Quarteira, que era muito feliz, e este livro reflete isso mesmo porque percebe-se que foi um homem que viveu uma relação apaixonada com este espaço, com esta Quarteira, que se desenvolveu com o povo de Quarteira. Teve essa particularidade de estabelecer uma relação de proximidade e de amizade com as pessoas de Quarteira. Este livro vem mesmo a propósito porque estamos a comemorar os 23 anos da elevação de Quarteira a cidade e aproveito para renovar o convite que já foi feito para que visitem a exposição 6000 anos de História e este livro vai para lá porque o considero uma peça importante daquilo que ali está, um contributo para as gerações futuras perceberem como é que Quarteira evoluiu, o que foi acontecendo, quais foram os seus protagonistas, porque neste livro está o povo. Obrigado amigo César Correia porque fez um livro excelente e com grande utilidade futura”.

Já para Telmo Pinto, “o César e a esposa são pessoas muito interventivas, como me tem sido dado a conhecer nesta minha função de presidente de junta. Temos tido algumas conversas, este grande gosto que têm por Quarteira e isso para nós é importante. Depois, dizer que são estas memórias que fazem parte da nossa história. Havia poucos livros sobre Quarteira mas felizmente têm aparecido pessoas a partilhar as suas memórias, as suas vivências, contributos importantes para história de Quarteira. Eu não sou daquela geração. Não sou da geração do gerador mas sou da geração logo a seguir. Também tive os meus primeiros namoricos debaixo do Calcinha e do Isidoro. Portanto, sinto esta vivência e a alteração toda que se registou em Quarteira. Agradeço o livro e toda a atenção que dedica a Quarteira. Referiu na sua intervenção uma das frases mais bonitas (criada por Vilamoura) e que retrata um pouco o que é a história e a cultura de Quarteira: «Não nasci aqui mas sou de cá». Quarteira tem muito disto e isso mudou a nossa cultura, a nossa forma de crescer e de olhar para as coisas. Temos uma população transversal a todos os locais, não nasceram cá mas todos gostam de Quarteira e gostam de viver Quarteira”.

José Manuel Guerreiro partilhou um episódio da arbitragem protagonizada por César Correia, uma inspiração que o motivou para enveredar pelo caminho da arbitragem.

A ocasião contou ainda com o simulacro de venda de peixe na praia pelo apontador de então, Cândido Correia.

A sessão terminou com sessão de autógrafos.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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