Loulé

Quando a Casa dos Barretos de Quarteira mandavam no Algarve e no Império Português além mar, culminando na titulação de D. Francisca da Aragão

A rubrica do Arquivo Municipal de Loulé, o Documento que se segue, teve lugar na tarde deste sábado, dia 19 de janeiro, com o tema “De Quarteira ao Império e à Titulação: A Casa dos Barretos de Quarteira (1383-1599)”, apresentado por Nuno Vila-Santa, da Universidade Nova de Lisboa, com introdução de Rita Moreira, chefe de divisão na Câmara Municipal de Loulé.

A iniciativa atraiu o interesse de uma boa moldura humana, com destaque para a presença de muitos quarteirenses. De referir ainda a presença do presidente da Câmara Municipal de Loulé, Vítor Aleixo.

Nuno Villa-Santa é Licenciado, Mestre e Doutor em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É investigador integrado ao CHAM como bolseiro de pós-doutoramento.

O documento agora apresentado em Loulé foi escrito no âmbito de uma bolsa de pós-doutoramento da Linha Temática “A Europa do Renascimento, os Velhos e os Novos Mundos”, financiada pelo CHAM – Centro de Humanidades.

Recorrendo a um conjunto documental inédito, presente na Biblioteca do Rio de Janeiro, este artigo pretende estudar a evolução da Casa dos Barretos de Quarteira nos séculos XV e XVI. Partindo das origens da linhagem e da Casa em Portugal, o artigo aborda a estratégia de consolidação patrimonial e de engrandecimento da Casa ao longo do século XV, procurando percecionar as bases exatas do poder alcançado no século XVI. Esta análise permite compreender como os Barretos de Quarteira evoluíram de uma nobreza de serviço provincial algarvia a uma nobreza de serviço cortesã que foi crescentemente acumulando cargos no Império (Marrocos, Índia e Brasil) durante o século XVI. Neste contexto, procura-se debater as condições que tornaram viável a titulação de uma não titular da Casa, D. Francisca de Aragão, em 1599, como 1.ª condessa de Ficalho, como corolário de uma estratégia prosseguida anteriormente e que tinha como fito a titulação da Casa.

Sendo conhecida a importância do Algarve para a manutenção e socorro das praças marroquinas, como sucedeu nos cercos de Arzila e Mazagão, em 1508 e 1562, a historiografia não deixou de destacar também a importância da Casa dos Barretos de Quarteira na constelação de poderes senhoriais no Algarve quinhentista.

De facto, desta Casa era oriundo não apenas o primeiro capitão de Azamor, Rui Barreto (1513-1514), 4.º senhor desta casa, como também um dos algarvios mais conhecidos do século XVI: Francisco Barreto, governador da Índia e do Monomotapa (1555-1558; 1569-1573).

O seu filho, Gonçalo Nunes Barreto II, foi fronteiro-mor do Algarve e juiz geral e vereador em Loulé.

Sucedendo a seu pai em 1431, Gonçalo Nunes Barreto III foi confirmado por D. Duarte como fronteiro-mor do Algarve e, em 1436, alcaide-mor de Faro.

Outro filho de Gonçalo Nunes Barreto III, Fernão Pereira Barreto, cavaleiro da Casa do Infante D. Pedro, foi nomeado, em Março de 1442, corregedor da comarca do Algarve, recebendo ainda nesse ano bens em Ceuta, em Faro (1445) e a nomeação para coudel-mor de Lagos (1449).

Em 1498, Rui Barreto recebeu uma nova mercê: a capitania de Faro. Pela primeira vez, um titular da Casa era formalmente promovido a capitão da cidade, pertença da Casa da rainha, vendo acrescidos os seus poderes na área da Justiça.

Em Março de 1513, Rui Barreto é nomeado vedor da fazenda do Algarve.

Seguindo a vontade manuelina, D. João III confirmou Nuno Rodrigues Barreto no cargo de vedor do Algarve na sequência do falecimento do pai, em Agosto de 1522.

Francisco Barreto partiu para a Índia, em 1548, como capitão-mor de um dos navios da armada e toda a sua carreira asiática culminou na assunção do cargo de governador da Índia, em 1555.

Ainda nos finais do século XVI, outros membros da Casa rumaram à Ásia e ao Brasil, numa clara estratégia de diversificação de serviços. No ramo dos Barretos Monizes, há que destacar a presença de António Moniz Barreto no cerco de Mazagão de 1562 e, posteriormente o seu governo da Índia entre 1573-1577. Apesar deste último ter sido partidário do Prior do Crato, em 1580, o seu irmão Manuel Teles Barreto seguiu Filipe II e foi o primeiro governador filipino do Brasil entre 1582 e 1587.

Em 1574, ocorre o enlace de D. Francisca de Aragão, irmã de Rui Barreto, com D. Juan de Borja, filho de Francisco de Borja, duque de Gandia e embaixador de Filipe II em Portugal. Com o beneplácito de Filipe II e da rainha D. Catarina, de quem D. Francisca era dama desde 1565, e a quem D. Sebastião deu tença pelo falecimento da rainha em 1578, este enlace abriu o caminho da titulação. Ao casar com um homem da confiança daquele monarca, o enlace criou condições para a nomeação do casal para camareiro-mor e mordomo-mor de D. Maria de Áustria, irmã de D. Filipe I. Conjunturalmente, foram precisamente estes serviços e os que posteriormente prestou a D. Margarida de Áustria, esposa de D. Filipe II, quando, conjugados com ascendência real aragonesa que D. Francisca herdara da mãe, que valeram a sua nomeação como 1.ª condessa de Ficalho, em 1599.

Conheça o documento de Nuno Villa-Santa no anexo:

https://planetalgarve.wordpress.com/wp-content/uploads/2019/01/Do_Algarve_ao_Imperio_e_a_titulacao.pdf

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

Categorias:Loulé, Quarteira

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